O FILHO PRÓDIGO

15 de Junho de 1955

.........Trinta anos de ausência da terra onde nasce um homem desenraízam-no cerce. O despaisamento é mais duro e inflexível que o transplante. A planta que muda de chão, se vinga no novo, enfolha e radica ali como se nada for a: nem há lugar para fibra e seiva estranharem. Passados os dias ou a semana em que as folhas, ressentidas, entristecem (pois a planta, como ser vivo, é dotada de um limiar de sensibilidade), o equilíbrio vegetativo refaz-se, e o indivíduo vegetal, aclimatado ao novo meio, revigora-se e expande-se.
.........Também o indivíduo humano acaba geralmente por adaptar-se à terra alheia. Mas, ao contrário da árvore, que, agarrada ao novo solo, não tem algum para lembrar o primeiro, o homem emigrado vê a sua felicidade, na emigração, perturbada pelas incidências da memória, que lhe representa a pátria deixada, família e amigos longíquos, circunstâncias vividas que para sempre se esvaíram.
.........Se o exilado prolonga o exílio a ponto de se naturalizar na terra que o acolheu - então a terra efectivamente perdida, tornando-a imaginada, depura-se e acomoda-se a essa situação ideal. O melhor é não mexer na representação da pátria que acompanha o homem ao longe: não pretender conferi-la, por um regresso efémero, com o representado. Por maior que seja a festa que lhe façam na casa paterna, o filho pródigo tem sempre de amargar a prodigalidade. Com o tempo revolvido, a boca sabe-lhe um pouco a remorso e a estranheza. Ou vai a chorar o tempo perdido por longe, mais irreversível que a copa de um guarda-chuva revirado, ou então chora talvez a terra a que se aclimou, e de que é desterrado agora que se repatriou! Estranhado ontem no exílio - agora, que torna à sua terra, o alheio e o estranho é ele.
.........Com efeito, camada sobre camada, os anos foram fazendo o seu ofício à revelia dele. Os da sua idade, deixados por ele na adolescência, visitados depois alguma rara vez, já moços, já maduros, envelheceram tanto ou mais que ele mesmo, que ora os vê. E geralmente estão mais caducos do que ele. Crescido e encorporado dia a dia, não é o lume do espelho à hora da barba feita que há-de dar ao homem consciência da velhice que o espreita e deteriora. Quer o ausente, quer o seu contemporâneo que ficou firme e fiel ao torrão deixaram-se amadurecer e avelhentar dia a dia, prega a prega, com seu cabelo branco disfarçado na trunfa ou na barba com o ar e o ademã do lobo do Chapelinho Encarnado ao fazer-se passar por vovó… Hoje um cuidado, amanhã um desgosto, e sempre a acção subtil do tempo vagaroso e fofo como os flocos da neve nocturna, o amigo vagabundo e o amigo terrantês ganharam paralelamente, a uma distância imensa, aquela tês tanada, um pouco esclerótica, e, nuns casos, balofa e luzidia de gorduras mal queimadas, noutros, curtida e enrefegada como a pobre substância - cutânea também - de um sapato deitado para o canto.
.........Mas, enquanto os fiéis companheiros que crescem acasalam e proliferam vizinhos, não se ausentando um do outro mais pelas amargas horas ou pelos escassos dias de algumas tarefas suburbanas, mal dão pelos sorrateiros estragos dos anos na arquitectura um do outro - os amigos separados pela emigração longo tempo, quando se enfrentam um ao outro, ficam como o doente de nervos longamente sujeito a uma reclusão terapêutica. A memória visual, por mais viva que a tenham de temperamento, vai-se abaixo. As feições que têm diante de si falam-lhe de uma cara conhecida. Quem quer que seja, porém, é como um morto ou um cataléptico no sepulcro vivo que ali está, na fisionomia fitada pelo ausente de tanto tempo.
.........E o ausente de torna-viagem diz de si para consigo: "Senhor! Mas eu conheço esta testa abaulada e este feitio de orelha… A tinta deste olhinho azul de coelho não me é estranha… Mas de onde?! De onde?!"
.........E o defrontado, se entrou no jogo de escondidas do regresso do filho pródigo - melancólico brinquedo de meninos apanhados em flagrante nas identidades de avós -, prolonga a situação embaraçosa do incógnito, deixa lavrar na própria cara o lume mortiço do cansaço, da desfiguração, da viuvez; até que da cara perplexa do recém-chegado sai o grito e o clarão da descoberta, o eureka do "é ele!"
.........É então que se dispõem a abater-se as muralhas da transformação acarretada pelos anos impiedosos, o disfarce do tempo implacável com o osso, com a pele, com o pêlo… Por um momento, parece que todo o edifício da distância, do apartamento, da diferença de meridianos e de condições de crescença e de medrança vai ruir e deixar, frente a frente, alma e alma: o garoto de dez ou doze anos com o seu companheiro de bancada de escola e de pião; o filho-família com o vizinho de ao pé da porta; o loiro com o moreno; o calmo com o frenético. E, com efeito, através das palavras de abundância cordial que o encontro impõe, alguma coisa do muito que o passado sepultou vem ao de cima: cada qual acha no próprio peito e na língua comum o toque justo.
.........Um sorriso, um dito, uma mão larga no ombro, a simples respiração mais funda de um instante calado (e que se destina geralmente a encobrir um olhar demasiado consciente da decadência ali à vista, ou a embargar um estúpido começo de soluço comovido ou de lágrima embaciada…) - e o reconhecimento está feito, os bons semtimentos estão salvos, a boa índole mostrou-se. Infelizmente, porém, o instante não chega para mais. Rápida e traiçoeira como uma ave de empalme, a indiferença gerada pelos caminhos diversos e pelas condições de vida irreconciliáveis vem geralmente gelar o encontro dos ausentes compridos, ou torná-los num simples cruzar de rumos de navios estrangeiros, que se acenam e vêm à fala para nunca mais se avistarem.

Vitorino Nemésio