13 de Novembro
Ouço
sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e
persiste
.........Uma
vila encardida - ruas desertas - pátios de lajes soerguidas
pelo único esforço da erva - o castelo - restos
intactos de muralha que não têm serventia: uma escada
encravada nos alvéolos das paredes não conduz a
nenhures. Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos
interstícios das pedras e delas extrai suco e vida. A torre
- a porta da Sé com os santos nos seus nichos - a praça
com árvores raquíticas e um coreto de zinco. Sobre
isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se na pedra,
o sol entranhou-se na humidade. Nos corredores as aranhas tecem
imutáveis teias de silêncio e tédio e uma
cinza invisível, manias, regras, hábitos, vai lentamente
soterrando tudo. Vi não sei onde, num jardim abandonado
- inverno e folhas secas - entre buxos do tamanho de árvores,
estátuas de granito a que o tempo corroera as feições.
Puíra-as e a expressão não era grotesca mas
dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem
à pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto
sepulcro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos
Sob
estas capas de vulgaridade há talvez sonho e dor que a
ninharia e o hábito não deixam vir à superfície.
Afigura-se-me que estes seres estão encerrados num invólucro
de pedra: talvez queiram falar, talvez não possam falar.
.........Silêncio. Ponho o
ouvido à escuta e ouço sempre o trabalho persistente
do caruncho que rói há séculos na madeira
e nas almas.
