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O
PAMPA
.......Como são melancólicas
e solenes, ao pino do sol, as vastas campinas que cingem as margens
do Uruguai e seus afluentes!
A savana se desfralda a perder de vista, ondulando pelas sangas
e coxilhas que figuram as flutuações das vagas nesse
verde oceano. Mais profunda parece a solidão, e mais pavorosa,
do que na imensidade dos mares.
.......É
o mesmo êrmo, porém selado pela imobilidade, e como
que estupefato ante a majestade do firmamento.
.......Raro
corta o espaço, cheio de luz, um pássaro erradio,
demandando a sombra, longe na restinga de mato que borda as orlas
de algum arroio. .......A
trecho passa o poldro bravio, desgarrado de magote; ei-lo que se
vai retouçando alegremente babujar a grama do próximo
banhado.
.......No
seio das ondas o nauta sente-se isolado; é átomo envolto
numa obra do infinito. A âmbula imensa tem só duas
faces convexas, o mar e o céu. Mas em ambas a cena é
vivaz e palpitante. As ondas se agitam em constante flutuação;
têm uma voz, murmuram. No firmamento as nuvens cambiam a cada
instante ao sôpro do vento; há nelas uma fisionomia,
um gesto.
.......A
tela oceânica, sempre majestosa e esplêndida, ressumbra
possante vitalidade. O mesmo pego, insondável abismo, exubera
de fôrça criadora; miríades de animais o povoam,
que surgem à flor d'água.
O pampa ao contrário é o pasmo, o torpor da natureza.
.......O
viandante perdido na imensa planície, fica mais que isolado,
fica preso. Em tôrno dêle faz-se o vácuo: súbita
paralisia invade o espaço, que pesa sôbre o homem como
lívida mortalha.
.......Lavor
de jaspe, imbutido na lâmina azul do céu, é
a nuvem. O chão semelha a vasta lápida musgosa de extenso
pavimento. Por tôda a parte a imutabilidade. Nem um bafo para
que essa natureza palpite; nem um rumor que simule o balbuciar do
deserto.
.......Pasmosa
inanição da vida no seio de um alúvio de luz!
.......O
pampa é a pátria do tufão. Aí, nas estepes
nuas, impera o rei dos ventos. Para a fúria dos elementos
inventou o Criador as rijezas cadavéricas da natureza. Diante
da vaga impetuosa colocou o rochedo; como leito de furacão
estendeu pela terra as infindas savanas da América e os ardentes
areais da África.
.......Arroja-se
o furacão pelas vastas planícies; espoja-se nelas
como o potro indômito; convole a terra e o céu em espêsso
turbilhão. Afinal a natureza entra em repouso; serena a tempestade;
queda-se o deserto, como dantes plácido e inalterável.
.......É
a mesma fase impassível; não há ali sorriso,
nem ruga. Passou a borrasca, mas não ficaram vestígios.
A savana permanece como foi ontem, como há de ser amanhã,
até o dia em que o verme homem corroer essa crosta secular
do deserto.
.......Ao
pôr do sol perde o pampa os toques ardentes da luz meridional.
.......As
grandes sombras, que não interceptam montes nem selvas, desdobram-se
lentamente pelo campo fora. É então que assenta perfeitamente
na planície o nome castelhano. A savana figura realmente
um vasto lençol desfraldado por sôbre a terra, e velando
a virgem natureza americana.
.......Essa
fisionomia crepuscular do deserto é suave nos primeiros momentos;
mas logo após ressumbra tão funda tristeza que estringe
a alma. Parece que o vasto e imenso orbe cerra-se e vai minguando
a ponto de espremer o coração.
.......Cada
região da terra tem uma alma sua, raio criador que lhe imprime
o cunho da originalidade. A natureza infiltra em todos os sêres
que ela gera e nutre aquela seiva própria; e forma assim
uma família na grande sociedade universal.
.......Quantos
sêres habitam as estepes americanas, sejam homem, animal ou
planta, inspiram nelas uma alma pampa. Tem grandes virtudes essa
alma. A coragem, a sobriedade, a rapidez são indígenas
da savana.
No seio dessa profunda solidão, onde não há
guarida para defesa, nem sombra para abrigo, é preciso afrontar
o deserto com intrepidez, sofrer as privações com
paciência, e suprimir as distâncias pela velocidade.
.......Até
a árvore solitária que se ergue no meio dos pampas
é tipo dessas virtudes. Seu aspecto tem o quer que seja de
arrojado e destemido; naquele tronco derreado, naqueles galhos
convulsos, na folhagem desgrenhada, há uma atitude atlética.
Logo se conhece que a árvore já lutou com o pampeiro
e o venceu. Uma terra sêca e poucos orvalhos bastam à
sua nutrição. A árvore é sóbria
e feita às inclemências do sol abrasador. Veio de longe
a semente; trouxe-a o tufão nas asas e atirou-a ali, onde
medrou. É uma planta emigrante.
.......Como
a árvore, são a ema, o touro, o corcel, todos os filhos
bravios da savana.
.......Nenhum
ente, porém, inspira mais enèrgicamente a alma pampa
do que o homem, o gaúcho. De cada ser que povoa o deserto,
toma êle o melhor; tem a velocidade da ema ou da orça,
os brios do corcel e a veemência do touro.
.......O
coração, fê-lo a natureza franco e descortinada
como a vasta coxilha; a paixão que o agita lembra os ímpetos
do furacão, o mesmo bramido, a mesma pujança. A êsse
turbilhão do sentimento era indispensável uma amplitude
de coração, imensa como a savana.
.......Tal
é o pampa.
.......Esta
palavra originária da língua quíchua significa simplesmente
o plaino; mas sob a fria expressão do vocábulo está
viva e palpitante a idéia. Pronunciai o nome, como o povo
que o inventou. Não vêdes no som cheio da voz, que
reboa e se vai propagando expirar no vago, a imagem fiel da savana
a dilatar-se por horizontes infindos? Não ouvis nessa majestosa
onomatopéia repercutir a surdina profunda e merencória
da vasta solidão?
.......Nas
margens do Uruguai, onde a civilização já babujou
a virgindade primitiva dessas regiões, perdeu o pampa seu
belo nome americano. O gaúcho, habitante da savana, dá-lhe
o nome da campanha.

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